Ao pensarmos e refletirmos sobre a inclusão e exclusão
de crianças e jovens com necessidades educacionais especiais (NEE) na escola vemos
que este processo é controverso, denso e visto sob diferentes perspectivas,
pois são vários os atores, instituições, elementos históricos e culturais que se
entrelaçam e nem sempre estão em sintonia entre si: a perspectiva dos
familiares, a do professor, do ponto de vista do coordenador e diretor, e ponto
de vista da criança com necessidades educacionais especiais.
Os familiares dos alunos, na maioria das vezes,
acreditam que a escola regular seja o melhor para os seus filhos e muitas vezes
ela é mesmo. Vemos todos os anos algumas famílias brigarem pelos direitos de
seus filhos e filhas estarem em salas regulares das escolas públicas, porém algumas
vezes eles só estão brigando pela matrícula porque alguém lhes disse que isto é
um direito deles e não porque eles tenham certeza de que seja o melhor para
seus filhos.
Os professores ficam relutantes e preocupados ao saber
que receberão um aluno com necessidades educacionais especiais e isto ocorre
não porque eles sejam preconceituosos, embora isto possa acontecer sim, mas
porque eles sabem que haverá muitas cobranças a este respeito e como já não
conseguem dar conta do mínimo que a escola deveria propor, instrução, se
colocam na defensiva e dizem que não têm a formação necessária.
Quando se referem à formação necessária os
professores estão implicitamente afirmando acreditar que estas crianças portadoras
de necessidades especiais são capazes, que podem aprender e evoluir, superar
suas limitações e podem ser felizes se forem bem assistidas, corretamente e
continuamente estimuladas. Eles sabem que nas salas de aula regulares, repletas
de alunos, muitas vezes com mais de vinte e cinco crianças, já há uma grande
diversidade entre as crianças ditas “normais”. Grande parte delas também
apresenta necessidades especiais, seja de estímulo, atenção, carinho ou outras.
Uma parte da turma, por assimilar rapidamente tudo o que é proposto, precisa de
estímulos e atividades extras, caso contrário fica desmotivada ou apresenta
problemas disciplinares. Outra parte tem um ritmo mais lento de aprendizagem e
aí estes professores ao serem avisados da chegada de um caso diagnosticado se
preocupam, se ressentem e sabem, mesmo que todo mundo afirme o contrário, que a
responsabilidade será exclusivamente dele. Quando os problemas começarem a
aparecer foi o professor que “não promoveu a adaptação correta do aluno”, foi ele
que “não providenciou atividades estimulantes”, material adaptado e adequado,
que “não propôs situações significativas”, que “não expôs a situação claramente
aos demais alunos”, que “não soube controlar a turma” que ficava indisciplinada
enquanto ele atendia às necessidades do outro aluno. Tudo isto é falado, feito
ou pensado na escola, seja abertamente ou nos olhares e entrelinhas pelos pais
do aluno em questão, pelos pais dos demais alunos, pelos colegas de profissão,
às vezes por coordenadores e diretores menos humanos ou comprometidos, enfim: o
que quer que faça, o professor está sempre errado. Sabendo disso tudo por
antecipação ele, muitas vezes, por desconfiar que não aguentará toda a pressão,
diz que não é indicado ao trabalho, que não tem formação suficiente.
Coordenadores e diretores, muitas vezes, estão ali,
na luta diária com pais e professores em prol do bem do aluno. Aqueles que
estão ocupando estes cargos, mas que têm consciência de sua condição de
professor, abraçam a causa e buscam, junto com os professores, estratégias e
caminhos a seguir. Infelizmente em algumas escolas a situação é completamente
diferente e lá eles apenas cobram dos professores que estes recebam o aluno em
suas salas de modo a atender à lei, jamais se preocupando em como o professor
lidará com a situação ou em como o aluno se sente ou está sendo atendido em
suas necessidades especiais.
E os alunos? Quantos deles terão a percepção de
notar como a inclusão realmente acontece? Quantos serão capazes de relatar a
suas famílias o grau de inclusão oferecido? De certo muitas famílias ao saber
como as coisas realmente acontecem tirariam seus filhos das salas de aula
regulares e os colocariam em escolas especializadas em crianças portadoras de
necessidades especiais, onde eles fossem melhor assistidos, em turmas menores e
com materiais e mobiliário adaptados ou até mesmo os deixariam em casa...
Pode parecer que eu sou contra a inclusão. Não sou
não! Sou contra a forma como ela acontece. Não se pode incluir um aluno e
excluir vinte e nove. Também não se pode incluir vinte e nove excluindo um. O
que fazer, então?
Em minha opinião os governos federais, estaduais e
municipais deveriam colocar mais a máquina pública à favor da inclusão de
verdade. O aluno com necessidades especiais deve preferencialmente frequentar
as salas regulares? Então as salas regulares deveriam estar preparadas para
recebê-los e essa preparação deveria ser desde o transporte para se chegar à
escola até rampas de acesso, banheiros adaptados, mobiliário adequado e um
profissional a mais na sala de aula, o tempo todo, garantindo que tanto os
alunos com NEE quanto os demais tivessem atenção. Além disso, fisioterapeutas,
fonoaudiólogos, psicólogos, neurologistas, etc., deveriam atender aos alunos na
própria escola, providenciando gratuitamente todo o material e remédios
necessários. Aí sim, haveria inclusão de
verdade.
